No coração de um Brasil polarizado, num Estado de contradições políticas, no município em (re)construção localiza-se o povoado que vive o maior drama de sua história, desde a alforria de seu povo.
No povoado São Sebastião dos Pretos, território quilombola certificado, onde a fé se entrelaça com a poeira da estrada, um pequeno aglomerado humano, conhecido mais pelas suas promessas sussurradas ao vento do que por seus marcos geográficos, viu sua serenidade estilhaçada pela ausência. Três pequenas vidas, três infantes da mesma família evaporaram no ar poluído pelas queimadas e pela devastação dos palmeirais, na tarde do dia 04 de janeiro de 2026.
Os pais, figuras outrora pilares de devoção, permaneciam agora em um estado de atordoamento quase sagrado, como se o trágico fosse uma miragem teimosa. A inércia deles, contudo, não se espalhou pela comunidade e a ausência notada das três crianças mobilizou os moradores que procuraram por toda a noite e ainda que não as encontrassem seguiram em busca.
O prefeito, movido por uma urgência que transcendia a política, acionou cada elo de sua rede de contatos. A resposta foi imediata e maciça: cães farejadores farejavam o chão, o som grave do helicóptero rasgava o céu, e as fardas das polícias Militar, Civil e os uniformes dos Bombeiros misturavam-se aos moradores do território em uma integrada busca que não conhecia descanso. A pausa para as refeições eram curtas, o repouso era em forma de revezamento. Todo o tempo era precioso!
Setenta e duas horas se arrastaram, e o milagre esperado ainda não havia se materializado. O paradoxo era cruel: o vilarejo pequeno o suficiente para ser cruzado a pé em poucas horas por adultos, guardava seus segredos com tenacidade. O maior obstáculo, contudo, não era a geografia, mas a própria voz humana. A esperança se contaminava. Cada trote, cada boato, cada "informação realista fantástica" semeada nas conversas de porta em porta e veiculada pela midia e mesmo pelaa autoridades tornava-se um ruído ensurdecedor ou um equívoco, uma precipitação desviando o foco dos profissionais que lutavam contra o relógio.
A comunidade, entre lágrimas e orações, prende a respiração coletiva. O desejo unânime é que, nas próximas horas, a cortina de fumaça da especulação se dissipe, e que o som mais doce que se ouça não seja o do motor do helicóptero, mas sim o choro saudável e a confirmação de que as três crianças foram encontradas, sãs e salvas, devolvidas ao abraço que lhes é de direito.
O esperado, em parte, aconteceu! Anderson Kauã foi encontrado por um carroceiro. O menino estava debilitado, foi assistido pelo SUS, através da ambulância do SAMU. O município havia deixado todo o seu staf a postos, a equipe de saúde seria essencial para garantir a assistência rápida e eficaz às crianças. Kauan passa bem, embora siga internado.
O governador veio ao quilombo, sensibilizou-se, ofereceu maior aparato para intensificar as buscas, pediu ajuda do exército, do Batalhão Ambiental, equipes altamente capacitadas, tecnologias de ponta disponibilizadas para as buscas. Parecia que se chegaria ao fim!
A Câmara de Vereadores foi ao povoado, falou com os moradores, deu entrevista e viveu o sentimento de impotência na busca pelos dois irmãos que não foram localizados.
Agora já se passaram cerca de 168 horas de buscas, ciclistas, caçadores, pescadores, escoteiros, extrativistas de coco babaçu e de juçara juntaram-se nas buscas. Mais de duas mil pessoas envolvidas diretamente e indiretamente – disse o prefeito em entrevista.
Buscas e perícias, roupas infantis encontradas, imprensa mobilizada, populares de diversos municípios envolvidos nas buscas sem resposta, mais perguntas insistem em serem feitas: 1 A PRF recebeu ordens do Estado e foi acionada para inspecionar os carros em trânsito desde o ocorrido? 2 Os moradores do povoado foram devidamente ouvidos pelas autoridades? 3 O Kauã apresentou a pista de que caminhou seguindo uma cerca, o que mais ele apontou que possa ser um indício? 4 Todas as versões que foram dadas ainda no domingo e na segunda-feira pela manhã foram apuradas? 5 A quem pertencem as roupas encontradas? E, 6 A nódoa numa peça de roupa encontrada numa casa do povoado revela vestígio de sangue ou já se pode descartar?
Não é por nada, é a angústia que toma a emoção de quem tomou conhecimento de uma historia de vida ou morte envolvendo crianças e nenhum dos órgãos de segurança nem todo o esforço empreendido resultaram em possibilidades concretas. "Quando a imagem não precisa de legenda..." (confira em https://www.instagram.com/carlos_henrique49?igsh=MW1wMzhvMHFjeGtsNw==A Assembleia Legislativa do Estado veio ver de perto o que é o quilombo, como vivem os quilombolas o sofrimento de um que mobiliza a todos e ensinam com a sua simplicidade: a boa política se faz com caridade. É a maior virtude da Política, disse o Papa Francisco.
São Sebastião, o povo espera pelo vosso milagre, longe dos holofotes da cidade, mas sob o peso de um país inteiro com o coração aflito em oração. São Sebastião, rogai por vossos irmãos pequeninos ao Pai onisciente e onipotente, trazei Isabele e Micael para os braços de sua família.
São Sebastião, rogai!
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Liduina Tavares – membra efetiva fundadora da cadeira n° 11 da Academia Bacabalense de Letras.


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